quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ficção

O poeta é um fingidor,
disse Fernando Pessoa.
Eu digo com convicção:
tudo que escrevo é ficção.

sábado, 8 de maio de 2010

O outro

Estou onde não estou
e por mais que me procure
vejo sempre outro no espelho.

Resíduo

De tudo fica um pouco.
Nunca é muito pouco.
Às vezes é tudo.

Eu bem que gostaria de morrer,
mas não já.
Viver sempre também cansa (isto
é um poema de José Gomes Ferreira),
mas eu ainda não cansei.
E se cansar não vou contar para ninguém.

Drummond enumerou demais.
Basta um objeto,
um cisco,
um dejeto.
Já é vida demais.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cidadezinha qualquer

A vida passa.
A carroça vai devagar,
mas a vida passa.
Os cachorros latem, a caravana se arrasta, uma tartaruga carrega o mundo no casco,
mas a vida passa.
Dizia sabiamente o poeta:
"Sopra, que passa."

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A semente

Tenho uma semente na unha.
Não posso tirar,
senão a flor não nasce,
senão o beija-flor desequilibra sua dança.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A chuva, oras.

Chove lá fora
Como um cachorro.
O mundo não vai acabar
Apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
E engolimos facas
E biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
Que cinza densa me sufoca,
Torna-se vidro
E tritura a minha alma.
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
Para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
Porque não há timão que o governe
Quando navega.
Verlaine,
Onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
E pedras e cabras.
É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
Devorando violetas?
O vento me leva,
E eu sei que a poesia
É água furando a pedra dura.

sábado, 10 de abril de 2010

Viva a república



Viva a república


Matem o poeta

cortem-lhe a garganta

arranquem-lhe a língua

sequem-lhe os pulmões


os olhos aos vermes

as unhas à fábrica

o cérebro aos porcos

e o fígado às moscas


é preciso urgente

urgente sufoquem

a voz do poeta

cruz-credo, cruz-credo


salvem a república

que não seja tarde

salvem a república

Deus nos livre e guarde


salvem a república

ela é filha única

salvem a república

dos nobres espíritos


salvem a república

a tão perfeitinha

oh matronas salvem

a republiquinha


salvem a república

ai republiqueta

salvem a república

do poeta besta


salvem a república

dos nobres políticos

que morra o poeta

e viva a república.

_________

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um soneto entre pedra e água




Um soneto entre pedra e água

Entre pedra e água está tudo que eu mais quis
e, se não quisesse, seria outra história, outra
invenção, com os fantasmas sob as escadas,
no vão das almas, em qualquer lugar nenhum,

para os liames do princípio ao fim, e quem que
entenda do traçado, padre, bispo ou os cavalos,
que venha destrinchá-los, e o mais são reservas
de paciência para o futuro abstrair, ou trair, sim,

que de traições é feita a vida, essa ferida bem mal
curada, sempre aberta, para o azul, o céu e o mar
que nos chama de longiperto, com as fauces loucas

às escâncaras, soltando fogo, chamando, chamando,
com insistência de velha a fiar o tempo na roca da vida
e babando a baba negra da morte, como um ácido fervendo.

_____________

sexta-feira, 19 de março de 2010

Uma orquestra no telhado




André


tenho um pé na banda e outro no gibi
tenho uma orquestra no meu telhado
tiro um banquete do meu teclado

jogo basquete de motocicleta
com o diabo na garupa
chupando cana e assobiando

pensa que é poeta, o capeta
e nem é mulher fogosa
nem menino com todos os desatinos

e termino dedicando noturno
este anti-poema para a alexandra
e para o raul ao luar

que o andré não arrede pé
deste poema sem pé
mas que quer seu lugar no espaço

entre as estrelas luzindo no infinito
ou no pó das coisas sem nome
além da infinita fome de poesia

____________

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Desamor




por que tanto luxo no luzeiro
por que a crisma na cadeira
e o abacate no copo verde
e o desamor no bigode verde

por que a crisma do luxo
ou do lixo em cima da cadeira
por que o abacate verde no bigode
e tanto luzeiro no desamor

tenho um copo de luxo verde na mão
tenho um abacate sentado na cadeira
e o bispo luzindo no firmamento

não me venham com a crisma lírica
ou lúrida no meu pobre corpo
que tudo é desamor fundo do poço

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nudez




Nudez

Estou cansado e meu olhar esquece
as imagens do dia e suas máscaras.
A noite gordurosa se apodera
do que sei e concebo, da palavra

que escrevo, por ofício de poeta.
Ofidio me recolho, ovo, repolho
palavras vagas nesta hora vaga
digo e repito, creme bolorento

ou o que for, o que se encrava e vaga.
E vago me refaço do meu susto
dos passos vagos na cidade vaga.

E como é tudo vago, vago fico
rico como uma cifra de jornal
vazio de tudo, vago e sujo, mudo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Gregório Vaz & Machado de Assis




A lâmina nos olhos

O universo sobre a minha cabeça
como um chapéu ou a coroa do velho
Rubião. A incógnita da servidão.
Humana é a dor. Arco, estrelas, flor? Estou só

e sei o tamanho do meu ânus. Uso palavras
poucas: o prisma, os sete sentidos. No mais
digo o que digo, o coração na mão.
Não sei meu destino. A morte é dos puros

das namoradinhas de antigamente. Meus são
os pesadelos, a febre e seus minotauros
seus monstros de mil faces e uma só: as jaulas
assépticas da cidade podre, o lodo por baixo.

Óleo, excremento, pus: máquinas lubrificadas.
O poeta é um animal cansado: rumina o mito
espumas na boca. Chega a hora do silêncio.
Esquartejemos o poema! Seu fel, sua negra beleza.

Chega a hora das alucinações desenfreadas.
Pulmão noturno, o belo pulsa.
O crime, a lepra, a espera de dias melhores
que virão, virão, um cadáver está dizendo.

A cidade dorme, a cidade é uma asquerosa
megera dorminhoca. É a hora, é a hora.
As luzes se apagaram, tudo é miragem.
Escarrem com raiva, inventem a raiva.

Quem tem medo, afogue-se no rio do trânsito.
Tudo é passagem. Não me peçam sensatez.
Quem não mata o que ama, não viveu.
A verdade está acima de todas as convenções

quando o espelho, a lâmina nos olhos.
Viva a náusea. Estamos vivos.
Alucinações! Relógio da solidão. Vamos
dançar uma valsa sobre nossos túmulos futuros.

Viva a alegria! Tiro o chapéu. Vai, universo
vai passear por aí. Hoje viveremos.

_________

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Carlos Drummond de Andrade e Gregório Vaz




O POETA FEDERAL

O poeta federal tira ouro do nariz.
Foi apenas blague, Drummond
ou sabença de mais valia
de vida e poesia

sem alheamentos
e porosidades vãs?
O poeta colhe, do nariz
o ouro. De onde

o colheria? De que palpite
infeliz? De que feliz
alvenaria? A poesia
fede e cheira. É vida

completa: pérolas
e dejetos. O poeta
tira ouro do nariz
tira o ouro onde estiver.

_________

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mallarmé revisitado 2




Brisa Urbana

Todos os livros são tristes, e a carne.
Há pássaros loucos no céu da cidade
babando a espuma do ódio
que move o sol e as outras estrelas.

Nos lagos do olhar afoga-se
uma cobra, nas dobras da memória.
Uma lâmpada fosca pende na rua
na noite nua e úmida como um túmulo.

A folha cinza brinca, múmia, à espreita
do poema tímido, sonâmbulo esqueleto
sem leito, âncora, num tédio imenso.

Danço a negra dança do destino,
canto os verdes hinos do desatino.
Sou um poeta pobre e sem brilho

oh minha alma sem martelo e sem bigorna.
Os mastros estão de rastros e não há mar

onde caiba o meu desgosto, a carne
um engodo e todos os livros, tristes.

_________

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mallarmé revisitado




UM COPO DE DADOS

Um copo de dados não abolirá
o azar. Casa-se ocaso e acaso?
Uma lança fura as nádegas
de lado a lado, Joaquim.

Estou triste e quem não estiver
que se dane, não é, Manuel?
Somos todos bons burgueses!
Mas a nossa pança de bosta, eia!

vale mais que o pé sem meia?
Não quero saber da poesia
parida no buraco do rato.

Quero a poesia como uma faca
na barriga. Que o sangue jorra.
Pus. Onde pus a esperança

é logro, o lúcido, o podre.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Poética do podre




5

Clamam gnomos de óculos
em bosques de plástico
as árvores túmulos
as máscaras cólicas
minha imagem trágica
essa dor aguda
na cara nas nádegas.

O poema podre
a rima e seu logro
nada vezes nada
o poeta urbano
torto feio e sujo
com tais predicados
encolhe a palavra.


6

A rua estava triste, como sempre.
Anjos tocavam banjos? Bolas.
Flores de cera, murchas nádegas
chacoalhavam-se, vacas melancólicas.

E tu querias duas melancias, menina?
Enfia a cara onde quiseres, minha velha.
Estou bêbado de desejo! A quimera
do primeiro beijo, do último arquejo?

Quero uma gueixa que me console
me coce os pés e o sovaco, mais nada.
Por que as estrelas de outrora soluçam

atrás da porta que não há? Bolas.
Não há palavras que sufoquem
o sufoco em que vivo, ficha num arquivo.

__________

domingo, 20 de dezembro de 2009

Poética do podre



4

A náusea é uma cegonha chata
um espelho baço, um chato
no sovaco, o enfado
zunindo, nitrindo.
A náusea é a cidade
chata, baça, no sovaco
o enfado das palavras
o chato nos olhos colhido
com colher de pau
pitada de mel e sal.
A náusea é isto
os homens rotos, ocos, de palha
o humano no cano
na atra culatra
da sarna, do ranho
do mofo
do nada. A náusea
é o morcego
morto de medo.
E são as palavras
cavas, baças, chatas
a nossa agra
face.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poética do podre



3

O asco é o meu pão cotidiano.
Oh sensibilidades. O óleo do tráfego
denso escorre. Vós que passais
virgens ao sol detergente
burilo o poema com o cinzel do meu sarro
não vos posso dar
senão o vômito.

Visualizações de páginas da semana passada