sexta-feira, 30 de abril de 2010

A semente

Tenho uma semente na unha.
Não posso tirar,
senão a flor não nasce,
senão o beija-flor desequilibra sua dança.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A chuva, oras.

Chove lá fora
Como um cachorro.
O mundo não vai acabar
Apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
E engolimos facas
E biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
Que cinza densa me sufoca,
Torna-se vidro
E tritura a minha alma.
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
Para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
Porque não há timão que o governe
Quando navega.
Verlaine,
Onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
E pedras e cabras.
É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
Devorando violetas?
O vento me leva,
E eu sei que a poesia
É água furando a pedra dura.

sábado, 10 de abril de 2010

Viva a república



Viva a república


Matem o poeta

cortem-lhe a garganta

arranquem-lhe a língua

sequem-lhe os pulmões


os olhos aos vermes

as unhas à fábrica

o cérebro aos porcos

e o fígado às moscas


é preciso urgente

urgente sufoquem

a voz do poeta

cruz-credo, cruz-credo


salvem a república

que não seja tarde

salvem a república

Deus nos livre e guarde


salvem a república

ela é filha única

salvem a república

dos nobres espíritos


salvem a república

a tão perfeitinha

oh matronas salvem

a republiquinha


salvem a república

ai republiqueta

salvem a república

do poeta besta


salvem a república

dos nobres políticos

que morra o poeta

e viva a república.

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