terça-feira, 30 de novembro de 2010
Um cão uivando para a lua
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Os grandes LPs - ou - o velho Vinil

Os grandes LPs, o máximo para se ouvir música com o som perfeito, ou o vinil, como dizem hoje, recriando um saudosismo de um tempo que nem viveram. Mas eram sublimes os LPs, era sublime a música ouvida naqueles bolachões – mas também não os chamávamos bolachões, nome depreciativo, não, nós os respeitávamos. É bonito agora ver renascer esse respeito – pela música mais encorpada, mais autêntica. Hoje são quase infinitas as maneiras de se reproduzir uma música, mas, porque infinitas, também artificiais.
Talvez muita gente discorde desse julgamento, quem sou eu? Deem uma olhada neste blog – clique no nome: EXTINÇÃO – para conferir. Extinção! Antes que acabe. LPs do mundo inteiro – de graça! Basta pagar o frete e uma pequena contribuição para se manter esse que se autodenomina Museu do Futuro. É uma graça! Nada é de graça neste mundo, mas vale a pena conhecer. Talvez você goste. Talvez você goste pelo menos de conhecer.
U.K. PUNK ROCK: RESISTANCE 77
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Elegia de Finados
entre as acácias à beira-mar e à beira-noite.
Estou habitado de ruínas,
alguns fantasmas, pouca cinza.
No limite da montanha uma deusa nua
me oferece o seio,
um pote de mel
e uma gaivota voando sobre a história.
Os dedos de um velho, ocultos sob as barbas,
tecem
imperceptível
a rede do tempo.
A beleza me estrangula, seu diamante implacável.
Uma pétala na taça de vinho, a rosa imarcescível
e o pão nos lábios como uma palavra.
01-11-07
José Carlos Mendes Brandão
sábado, 9 de outubro de 2010
O LEITO DO HOSPITAL

O leito do hospital
era alto de muitos metros.
Eu olhava o mundo
de cima, com galhardia.
Eu olhava o mundo
como quem não olha.
Eu não olhava o mundo:
a vida passava.
Era noite alta.
O leito alto era um leito
de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores,
uma bomba atômica, meu Deus!
Todos os barulhos do mundo
chegavam ao meu leito.
Era escuro.
Eu estava alto
ouvindo todos os barulhos do mundo
e alheio.
Doía.
Em algum lugar do mundo
doía.
Doía em mim.
Em algum lugar de mim. No pulso cortado, no lado
direito do corpo, no esquerdo? Em algum lugar
de mim, doía.
Carros passavam.
Na rua, no mundo, nos corredores do hospital.
O enfermeiro estava ausente, presente, outra vez
ausente.
O enfermeiro era um zumbi esvoaçante pelas portas
e janelas do quarto.
E a dor? O que é a dor?
O corpo tenso. O corpo ferve. Não há nada e há
uma tensão no ar, no corpo.
Pior: você não sabe que está sofrendo.
Você está sofrendo.
Como se estivesse levitando: e sofrendo.
Você está atento. Sente todos os ruídos do mundo.
Brecadas, um motor, os motores, mudanças de mar-
cha.
Sopros, sopros, como se um carro respirasse com o
outro.
Os carros entravam pelos corredores do hospital a
dentro
Nós, doentes, moribundos, não existimos.
Lembrem-se: quem está doente num hospital é um
moribundo.
A vida é um fio.
Você está vivo. Você está mais vivo que nunca.
Você sente,
sente que está vivo.
Você está vivo numa tumba de mortos.
O enfermeiro a dois metros de sua porta
é um guardião da sua tumba.
E que tumba fria. Você fervendo.
Você não se importa, mas está fervendo.
Você está fora de perigo, é eterno, mas está ferven-
do.
O que está sentindo? Milhares de vezes lhe vem à
cabeça a mesma idéia:
Não estou sentindo nada. O corpo fervendo.
Folhas verdes no chão. Folhas verdes e vermelhas.
A morte que deveria ter sido e não foi.
Você está morto? Vivo?
As flores murcham nos vasos, não têm raízes.
Eu tenho raízes?
Vruum, vroom, vooom, in, ein, iin, voom, vruum,
vrooom.
As minhas raízes nos ruídos, de fora, de dentro do
hospital.
O que existe fora, dentro de mim?
Que história devo contar?
Devo contar alguma história?
Quem sou? Sou? Fui já alguma coisa?
Ser? Que é ser? Existe um presente de ser? Existe
um passado? O ser tem história? Que fazer do
meu corpo ilusório?
As flores murcham nos vasos, ilusórias.
A noite prossegue, a noite é infinita.
Há um braço negro se estendendo sobre você, um
braço enorme, um braço de sombra, pingando
sangue.
Tudo são perguntas. O que acontece? Até quando?
Eu existo? Por quê? Para quê? Um anjo de sombra
paira sobre você.
A vida é um vaso com um pouco d'água e uma flor
dentro. Alguém pergunta:
– Quem conspira? Ninguém? Sim? Não?
A flor é executada.
A beleza fenece no devido tempo: antes do tempo.
A beleza é perene: mas fenece.
A beleza é eterna, mas como uma idéia.
A beleza vai morrer. Nós não somos nada. A perma-
nência não existe. Pétala murcha. Pó.
A cinza espalhada sobre a terra, a permanência, meu
corpo vão.
Que me queres?
Ó mundo, ó demônios, o nada me espera.
Eu sempre soube: o nada me espera.
Eu não sou nada.
Nada me prende a nada
a não ser este leito de hospital.
Estou feliz.
Não espero nada.
Existe uma dor, mas eu não defino essa dor.
Eu não distingo essa dor. Nem sei se dói.
Ó vida, para que viver?
Eu nem sei se quero viver ou morrer.
Quantas vezes mergulhei do alto precipício
e era uma visão sem fundo
e era o vácuo, era o vácuo, o vácuo.
No fim, não caía mais.
Assim a vida.
Estamos caindo? Cairemos mais? E o vácuo?
Quem não sentiu o vácuo de viver?
Morrer não é nada, viver não é nada.
Que fazer?
O leito do hospital me prende.
Algemas de aço, estou preso, estou preso.
Tenho as mãos e os pés presos em algemas de aço,
e o pescoço, a língua, os olhos, o sexo.
Existir, que é existir?
Existo como um morto-vivo existe.
O que é realmente viver, morrer?
Nem sei se estou sofrendo.
Um século algemado a este leito de hospital.
Os pulsos sangrando, os tornozelos, o pescoço.
A fronte é azul. A fronte é vermelha de sangue
e azul, azul, azul fosforescendo no escuro.
Como brilha, esse escuro.
E o dia não vem, o dia não vem.
Por que queremos a presença do dia?
O que é o dia? Morrer, viver, alguma diferença?
Deuses, acorrentado a este catre negro.
Acorrentado num porão de navio
que sacoleja, aderna com a tempestade – vamos
afundar?
Tenho a certeza de que não vou afundar.
Tudo é certo neste mundo.
Por que sofro?
Nada se acaba, a história continua, ninguém tem im-
portância nenhuma. O homem sofre diante do
universo, mas que é o universo?
Que é o homem? Nada versus nada. Estrelas brin-
cam de cabra-cega, esconde-esconde, mãe-da
-rua.
O que é a vida? Pirulito nas mãos de uma criança,
chupou, acabou-se.
Por que, então, viver?
Resta, do pirulito, o sabor. Para quem? A criança?
Por quanto tempo?
Resta do pirulito o sabor.
As algemas me roem o pulso.
Estou preso a este leito de hospital.
Estou preso à vida e olho meus companheiros, que
são ninguém.
Um coitado com dor de estômago resmunga e vomi-
ta no leito ao lado.
O enfermeiro cochila na cadeira ao lado da porta.
Meus companheiros não nutrem grandes esperanças.
Sei que vou morrer.
Mas não agora. Hoje, nesta noite escura, não penso
na morte.
Hoje vivo a minha morte.
Que longa, a morte.
E, no entanto, sei que vou morrer.
Hoje, não penso na minha morte.
Estou vivo como o diabo.
Sabem o que é isso, estar vivo como o diabo?
O diabo abana a cauda no meio do redemuinho.
Escorregando na vida como o diabo,
liso como o diabo,
com aquela baba gosmenta do diabo.
A vida me escorrega por entre os dedos como o dia-
bo.
E eu sei que não vou morrer. Não. Hoje não.
É dia. Gente entra e sai.
Vivi um século sem saber que doía. Sem saber que
não estava morrendo muito devagar.
Uma aranha me sobe pela cara.
Uma aranha se gruda na minha cara.
Estou limpo. Estou assustadoramente limpo.
Um banho, lençóis limpos, pijama limpo
e o mesmo corpo inerme.
Inerme? Eu nem sabia que doía. Eu doía.
Uma injeção me salva. Dormi. Dormi
como um homem dorme.
Como um anjo. Muito de leve.
Como um morto. O morto que eu fui.
E sou.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Um poema de amor
Hoje é dia de finados
Você passeia pelo cemitério procurando meu túmulo
Choveu faz sol o dia está agradável
Você sente o perfume da morte
São as flores são as velas é um indefectível
Cheiro de carne que já não é
A carne dos mortos engorda a terra
E a terra é sempre magra
Fende-se parte-se em mil ranhuras
Já não se sabe o que é terra o que são ossos
A terra protesta os túmulos protestam
Muita festa e muita tristeza se fundem
Somente você não está triste
Você sabe que eu não estou em nenhum desses túmulos
Você procura o meu túmulo por procurar
Por uma diversão perversa
Eu deveria estar aí
Eu deveria estar embaixo da terra
Eu deveria ser um punhado de ossos
A minha alma mortal
A lembrança da minha presença
Fogo-fátuo espiralando-se no ar
A minha presença gorda no mundo
Dilui-se nas ruas do cemitério
Onde não estou
Você está sorrindo para o meu túmulo etéreo
A minha ausência estúpida
Ainda não é a hora do olvido
As águas passam debaixo das pontes
O vento assobia em algum sótão impalpável
Estou no sótão estou entre os afogados
Sou um homem entre os homens
Uma bunda ainda me excita
A língua o beiço vermelho
A mulher me justifica
Me derruba me anula
Você é sábia
O olhar conhece
As unhas as garras o bico adunco
A mulher domina
O mundo inútil
O corpo inútil do homem
Já não conheço as trevas
Já apaguei as luzes todas e vejo
O que existe para ser visto
Pairo
Não tenho carência de prêmios
Meu pai apontava os mortos
Carregava os mortos no bolso da camisa
Do lado do coração
Meu pai me ensinava lições de morte
Com orgulho
Estes sãos os meus mortos como que dizia
E acarinhava cabelos e ombros íntimos
Os mortos não carecem de prêmios
O maior prêmio da vida é a morte
Eu tenho orgulho da minha morte
Galardão
Mel na sombra sorvo tanto sol
Anoiteço na teia de aranha
A invenção do dia
No corpo da mulher
Eu me entrego à abelha-rainha
A mulher me consome no jardim
No mar sem fantasmas
No meio da rua
Um escorpião me assassina
O corpo vibra
O corpo explode com o veneno
Amor é grande
Você passeia pelo cemitério
Para me lembrar
Meu corpo lhe pertence
A alma a vontade fraca
As suas palavras cantam
“Você morreu, cara”
“Cara” – Nunca ninguém assim
Declarou o seu amor
Nem era preciso
Ter voltado.
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Um poema extemporâneo.
Mas fazer o quê! Eu, Gregório Vaz, sou extemporâneo.
Como não estamos em Finados
leia como um poema de amor.
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Fênix
O edifício desmorona sobre meu corpo.
Eu sufoco sob as pedras do edifício,
sob a terra, o pó, os ferros invisíveis
da grande pirâmide que cai sobre mim.
Que sou, sob essa montanha de pedras?
Que sou, que não respiro?
Eu, animalzinho indefeso sob o peso do mundo.
Eu, que não penso, já não sinto, objeto inútil
como qualquer objeto.
A grandeza humana evapora-se
quando você deixa de ser homem e é coisa
entre as coisas.
Você morre como uma fruta morre.
A fruta aduba a terra
e você aduba a terra
e isso é todo o sentido de ser fruta ou homem.
Morrer sem dar por isso foi o meu prêmio.
Morrer, mas eu voltei.
Não estava bem morto.
Sou o cara imperfeito
até na morte.
Ainda sinto as pedras caindo sobre mim.
Inerme como um pequeno inseto.
Insignificante como um pequeno inseto.
Sem dor,
sem nenhuma idéia na mente que se apaga,
sou o obejeto que se anula
porque objeto.
Eu soube que o mundo ruíra,
só muito depois eu soube que o mundo ruíra.
Um mundo de pedras desaba sobre meu corpo inútil.
Só muito depois me disseram: "Você está vivo,
cara."
Eu, que nunca me dera conta de estar vivo,
agora soube que morrera
e que estava vivo.
Agora que morrera,
eu estava vivo.
(Mas a chuva cai lá fora, longe do meu corpo,
inútil.
O espelho não me serve de nada,
é outrem quem eu vejo.
O meu cão lambe as mãos de outrem.
Eu me ajoelho diante do altar de um deus
de outrem, meu Deus,
eu que perdera a fé por desfastio,
ai, meus penates.)
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
As botas do diabo
quando eu morri.
E eu nem usava botas.
Meus pés eram macios
no escuro
rumo a lugar nenhum.
Os quadros tremem na parede,
do outro lado o vazio.
O assoalho é muito velho,
a casa toda é muito velha,
As tias velhas,
os parentes muito antigos,
os parentes pendurados das paredes,
a morte escorrendo das paredes
com a pátina verde e branca
e o sangue vermelho.
Ficou o sangue
que não se apaga.
Estou distante,
já não distingo o frio da noite.
Não sei dizer o que aconteceu.
Talvez nada tenha acontecido,
um cochilo,
piscar de olhos,
história que me contaram,
angústia alheia.
(A nossa própria morte
não nos pertence.)
Mas eu acordei.
Foi um sonho leve. Mas eu acordei.
Eu me levantei de dentro do sangue
que me envolvia.
Tanto sangue
sobre meu peito.
Tanto sol e sangue
sobre minhas pálpebras.
Foi um sonho leve.
Sem pesadelos.
Eu acordei feliz.
Não pensei na morte ou na dor.
Nenhum desespero
no bolso das calças.
Eu estava leve
como um idiota feliz.
Apenas um pouco de bosta na minha bota
me lembrava a morte.
(Eu caminhara sobre as águas
com as botas do diabo.)
Ficou um perfume.
Ficou uma cor.
Ficou um dar de ombros.
Ficaram os dentes amarelos.
E ficou o pé no saco:
a morte é foda.
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sábado, 28 de agosto de 2010
A passagem
Morto como um morto
O sangue coagulado no peito
Como uma flor nojenta
Os olhos parados
Eram um espelho fosco
Os olhos parados
E o nada do outro lado
Eu me apagara
E ostentava um sorriso feliz
Nada mais triste que um idiota
Que não conta nenhuma história
Eu era o idiota
Que já não se importa
O trânsito parou
Porque eu estava morto
Porque eu era outro
Eu já não era
Eu retornava de lugar nenhum
Eu retornava com uma flor na boca
O mundo tinha as mesmas cores
Eu é que não tinha cor
Eu não tive nenhuma dor
Na passagem
Eu comprara passagem
De ida e volta
E nem soubera
Do embarque ou desembarque
Apenas perdera a cor
Com o sangue
Talvez um pouco da alma
Ou toda
Comprara alma nova
E descobrira que toda alma
É velha de séculos
Roupa de um morto maior
Tábua rasa
A vida é a vida meu bem
Viver é dar de ombros
Ao morto que fomos
Ou somos
O morto e o morto
A mosca sobre o olho
Inquieta
Como dói
Uma mosca
Havia um sol de fim de tarde
O sol do morto
O sol do cemitério
A flor dos túmulos
Às cinco em ponto da tarde
Que hora terrível meu Lorca
Fazia falta um caixão
Talvez eu me sentisse morto
Como é mesmo estar morto?
É preciso um caixão
Um caixão e o sol das cinco da tarde
É preciso baixar à sepultura
É preciso um pouco de terra
Uns tijolos e a argamassa
O suor escorrendo no olho do pedreiro
O público muito pouco
Porra alguém pensa
Porra eu digo
Que o morto não era o morto
Feio como um morto
Não era o morto
Como um ladrão no sono
O ladrão que anda torto pelos cantos
Nem sabe o que quer no escuro
Esbarra nos móveis
Faz um barulho do outro mundo
O morto é o ladrão no sono
Levou a minha alma
Não havia sol às cinco da tarde
Não havia túmulo
Não havia público
Não havia caixão
Muito sem graça
Passei manteiga na cara
E era outro
Era outro sem ter sido
O morto
Nem o vivo.
__________
Poema de "História a Minha morte", 2003.
__________
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Aniversário

Aniversário
Cinqüenta anos de idade.
Meu presente mais-que-perfeito.
O presente que estou me dando.
Meio século de vida.
Por que comemorar meu aniversário?
Estou um século mais velho.
O que é que eu tenho para comemorar?
Cinqüenta anos ou apenas um ano?
Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?
Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos
brancos,
os dentes apodrecem, o corpo e o espírito apodrece.
A idade pesa nos ombros,
a idade tem o peso de um túmulo.
Que quero eu da vida?
Nada.
Dizem que nasci ontem.
Mas nasci velho.
De repente me descobri velho.
Quando eu era mais jovem, um homem de cinqüenta
anos era um velho.
Quando cheguei aos quarenta, e a vida começa aos
quarenta,
me senti jovem: a vida começava aos quarenta.
Envelheci de repente.
Envelheci, sem mais nem menos.
É jovem o espírito?
Tenho muita saúde, disposição?
Mentira.
Vivemos de engambelações.
É verdade: por mais que queiramos destilar
otimismo,
a vida não tem o mesmo sabor.
Nasci ontem?
Renasci, depois de um acidentezinho besta.
Voltei velho.
Voltei estranho.
Sou um estranho no mundo.
ou o mundo é que é estranho para mim?
Tanto faz. Vegeto, pouco mais que isso.
Me importa o prazer: boa mesa, boa cama.
Sem grandes sonhos. Sem sonhos. Existo.
Não tenho planos.
Quero existir enquanto existo.
Não temo o futuro,
não planejo o futuro.
O futuro não existe.
Quero o aqui e o agora.
Sem muita determinação.
Ficam abolidas todas as frustrações.
Ser e não-ser se dão as mãos.
Quais os problemas a resolver?
Nenhuns.
La nave va.
Não tenho problemas.
Não vou a lugar nenhum.
Não conheço a verdade.
Não estou interessado em verdade nenhuma.
Quem é o dono da verdade?
Matem-no.
Ou não o matem. Dá na mesma.
Olho no espelho e não me encontro.
Quebro o espelho, pelo prazer de não me encontrar
em caco de vidro nenhum.
Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro.
Os homens, quando morrem, morrem.
Tanta gente morta.
Tantas cruzes à beira do caminho.
Cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos,
parentes: esquecidos.
Vira a página e esquece.
A vida é isto: esquecimento.
Nenhum dia a mais senão o olvido.
Põe uma pedra sobre tudo que passou.
Se passou, já não é.
Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres
da vida.
Tudo passa.
Scripta manent: não escreva nada.
Por que escrevo?
Tantos despropósitos na vida.
Quero viver este momento inútil.
Quero viver todos os momentos inúteis que me
forem dados.
Morrer, quando me for dado morrer.
E desta vez que seja para sempre.
Escrevo por desfaçatez.
Talvez eu deva isso a alguém.
Mas não quero pagar dívida nenhuma.
Escrevo por escrever.
Respiro por respirar.
Me acontece de respirar.
Não sou melhor nem pior por isso.
O mundo não é melhor nem pior por isso.
Não sou mais feliz ou infeliz.
Ou talvez seja.
Talvez eu procure alguma coisa,
talvez eu tenha encontrado.
O vento me dá na cara, neste momento,
e eu sinto prazer.
Os valores estão mudados.
Sinto prazer.
Sinto prazeres mínimos e enormes
e me sinto bem.
Talvez seja necessário dizer isso.
Para mim mesmo.
O resto do mundo? Que se dane.
Não posso salvar a humanidade
Não sei se a humanidade quer ser salva.
Não sei o que é salvar a humanidade.
Existo. Mais nada.
A fome, as desigualdades sociais, as guerras?
Não posso resolver.
Não posso mais sofrer.
Todas as dores humanas,
toda a grandeza e miséria humana
já não me pertencem.
Peço desculpas.
Ou não peço: saio de fininho.
Como quem já morreu.
Talvez eu já tenha morrido.
(Apenas o prazer me diz que eu estou vivo.
O prazer me diz que eu existo.
Não tenho mais desejos.
Culpado? Foda-se.)
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O poema perfeito

O poema perfeito
Quando eu fizer um poema perfeito, posso morrer.
Por isso não faço.
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não deixe de ver: http://poesiacronica.blogspot.com/2010/08/as-palavras-e-o-mito.html
terça-feira, 27 de julho de 2010
O sapo
E você?
Depois que o sapo morreu, choveu.
Depois de você, o quê?
http://poesiacronica.blogspot.com/2010/08/ruazinha.html
domingo, 25 de julho de 2010
Os elefantes
Dois elefantes incomodam muito mais.
Mil elefantes incomodam ainda mais.
O mundo está cheio de elefantes.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
A palavra perfeita
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Nel mezzo del camin
Saiu voando.
No meio do caminho tinha uma árvore,
Saiu voando.
No meio do caminho tinha uma pedra,
Saiu voando.
As melhores imagens do poema
Saem voando.
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
Resíduo
Nunca é muito pouco.
Às vezes é tudo.
Eu bem que gostaria de morrer,
mas não já.
Viver sempre também cansa (isto
é um poema de José Gomes Ferreira),
mas eu ainda não cansei.
E se cansar não vou contar para ninguém.
Drummond enumerou demais.
Basta um objeto,
um cisco,
um dejeto.
Já é vida demais.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Cidadezinha qualquer
A carroça vai devagar,
mas a vida passa.
Os cachorros latem, a caravana se arrasta, uma tartaruga carrega o mundo no casco,
mas a vida passa.
Dizia sabiamente o poeta:
"Sopra, que passa."
sexta-feira, 30 de abril de 2010
A semente
Não posso tirar,
senão a flor não nasce,
senão o beija-flor desequilibra sua dança.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
A chuva, oras.
Como um cachorro.
O mundo não vai acabar
Apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
E engolimos facas
E biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
Que cinza densa me sufoca,
Torna-se vidro
E tritura a minha alma.
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
Para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
Porque não há timão que o governe
Quando navega.
Verlaine,
Onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
E pedras e cabras.
É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
Devorando violetas?
O vento me leva,
E eu sei que a poesia
É água furando a pedra dura.
sábado, 10 de abril de 2010
Viva a república

Viva a república
Matem o poeta
cortem-lhe a garganta
arranquem-lhe a língua
sequem-lhe os pulmões
os olhos aos vermes
as unhas à fábrica
o cérebro aos porcos
e o fígado às moscas
é preciso urgente
urgente sufoquem
a voz do poeta
cruz-credo, cruz-credo
salvem a república
que não seja tarde
salvem a república
Deus nos livre e guarde
salvem a república
ela é filha única
salvem a república
dos nobres espíritos
salvem a república
a tão perfeitinha
oh matronas salvem
a republiquinha
salvem a república
ai republiqueta
salvem a república
do poeta besta
salvem a república
dos nobres políticos
que morra o poeta
e viva a república.
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quarta-feira, 24 de março de 2010
Um soneto entre pedra e água

Um soneto entre pedra e água
Entre pedra e água está tudo que eu mais quis
e, se não quisesse, seria outra história, outra
invenção, com os fantasmas sob as escadas,
no vão das almas, em qualquer lugar nenhum,
para os liames do princípio ao fim, e quem que
entenda do traçado, padre, bispo ou os cavalos,
que venha destrinchá-los, e o mais são reservas
de paciência para o futuro abstrair, ou trair, sim,
que de traições é feita a vida, essa ferida bem mal
curada, sempre aberta, para o azul, o céu e o mar
que nos chama de longiperto, com as fauces loucas
às escâncaras, soltando fogo, chamando, chamando,
com insistência de velha a fiar o tempo na roca da vida
e babando a baba negra da morte, como um ácido fervendo.
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sexta-feira, 19 de março de 2010
Uma orquestra no telhado

André
tenho um pé na banda e outro no gibi
tenho uma orquestra no meu telhado
tiro um banquete do meu teclado
jogo basquete de motocicleta
com o diabo na garupa
chupando cana e assobiando
pensa que é poeta, o capeta
e nem é mulher fogosa
nem menino com todos os desatinos
e termino dedicando noturno
este anti-poema para a alexandra
e para o raul ao luar
que o andré não arrede pé
deste poema sem pé
mas que quer seu lugar no espaço
entre as estrelas luzindo no infinito
ou no pó das coisas sem nome
além da infinita fome de poesia
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Desamor

por que tanto luxo no luzeiro
por que a crisma na cadeira
e o abacate no copo verde
e o desamor no bigode verde
por que a crisma do luxo
ou do lixo em cima da cadeira
por que o abacate verde no bigode
e tanto luzeiro no desamor
tenho um copo de luxo verde na mão
tenho um abacate sentado na cadeira
e o bispo luzindo no firmamento
não me venham com a crisma lírica
ou lúrida no meu pobre corpo
que tudo é desamor fundo do poço
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nudez

Nudez
Estou cansado e meu olhar esquece
as imagens do dia e suas máscaras.
A noite gordurosa se apodera
do que sei e concebo, da palavra
que escrevo, por ofício de poeta.
Ofidio me recolho, ovo, repolho
palavras vagas nesta hora vaga
digo e repito, creme bolorento
ou o que for, o que se encrava e vaga.
E vago me refaço do meu susto
dos passos vagos na cidade vaga.
E como é tudo vago, vago fico
rico como uma cifra de jornal
vazio de tudo, vago e sujo, mudo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Gregório Vaz & Machado de Assis

A lâmina nos olhos
O universo sobre a minha cabeça
como um chapéu ou a coroa do velho
Rubião. A incógnita da servidão.
Humana é a dor. Arco, estrelas, flor? Estou só
e sei o tamanho do meu ânus. Uso palavras
poucas: o prisma, os sete sentidos. No mais
digo o que digo, o coração na mão.
Não sei meu destino. A morte é dos puros
das namoradinhas de antigamente. Meus são
os pesadelos, a febre e seus minotauros
seus monstros de mil faces e uma só: as jaulas
assépticas da cidade podre, o lodo por baixo.
Óleo, excremento, pus: máquinas lubrificadas.
O poeta é um animal cansado: rumina o mito
espumas na boca. Chega a hora do silêncio.
Esquartejemos o poema! Seu fel, sua negra beleza.
Chega a hora das alucinações desenfreadas.
Pulmão noturno, o belo pulsa.
O crime, a lepra, a espera de dias melhores
que virão, virão, um cadáver está dizendo.
A cidade dorme, a cidade é uma asquerosa
megera dorminhoca. É a hora, é a hora.
As luzes se apagaram, tudo é miragem.
Escarrem com raiva, inventem a raiva.
Quem tem medo, afogue-se no rio do trânsito.
Tudo é passagem. Não me peçam sensatez.
Quem não mata o que ama, não viveu.
A verdade está acima de todas as convenções
quando o espelho, a lâmina nos olhos.
Viva a náusea. Estamos vivos.
Alucinações! Relógio da solidão. Vamos
dançar uma valsa sobre nossos túmulos futuros.
Viva a alegria! Tiro o chapéu. Vai, universo
vai passear por aí. Hoje viveremos.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Carlos Drummond de Andrade e Gregório Vaz

O POETA FEDERAL
O poeta federal tira ouro do nariz.
Foi apenas blague, Drummond
ou sabença de mais valia
de vida e poesia
sem alheamentos
e porosidades vãs?
O poeta colhe, do nariz
o ouro. De onde
o colheria? De que palpite
infeliz? De que feliz
alvenaria? A poesia
fede e cheira. É vida
completa: pérolas
e dejetos. O poeta
tira ouro do nariz
tira o ouro onde estiver.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Mallarmé revisitado 2

Brisa Urbana
Todos os livros são tristes, e a carne.
Há pássaros loucos no céu da cidade
babando a espuma do ódio
que move o sol e as outras estrelas.
Nos lagos do olhar afoga-se
uma cobra, nas dobras da memória.
Uma lâmpada fosca pende na rua
na noite nua e úmida como um túmulo.
A folha cinza brinca, múmia, à espreita
do poema tímido, sonâmbulo esqueleto
sem leito, âncora, num tédio imenso.
Danço a negra dança do destino,
canto os verdes hinos do desatino.
Sou um poeta pobre e sem brilho
oh minha alma sem martelo e sem bigorna.
Os mastros estão de rastros e não há mar
onde caiba o meu desgosto, a carne
um engodo e todos os livros, tristes.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Mallarmé revisitado

UM COPO DE DADOS
Um copo de dados não abolirá
o azar. Casa-se ocaso e acaso?
Uma lança fura as nádegas
de lado a lado, Joaquim.
Estou triste e quem não estiver
que se dane, não é, Manuel?
Somos todos bons burgueses!
Mas a nossa pança de bosta, eia!
vale mais que o pé sem meia?
Não quero saber da poesia
parida no buraco do rato.
Quero a poesia como uma faca
na barriga. Que o sangue jorra.
Pus. Onde pus a esperança
é logro, o lúcido, o podre.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Poética do podre

5
Clamam gnomos de óculos
em bosques de plástico
as árvores túmulos
as máscaras cólicas
minha imagem trágica
essa dor aguda
na cara nas nádegas.
O poema podre
a rima e seu logro
nada vezes nada
o poeta urbano
torto feio e sujo
com tais predicados
encolhe a palavra.
6
A rua estava triste, como sempre.
Anjos tocavam banjos? Bolas.
Flores de cera, murchas nádegas
chacoalhavam-se, vacas melancólicas.
E tu querias duas melancias, menina?
Enfia a cara onde quiseres, minha velha.
Estou bêbado de desejo! A quimera
do primeiro beijo, do último arquejo?
Quero uma gueixa que me console
me coce os pés e o sovaco, mais nada.
Por que as estrelas de outrora soluçam
atrás da porta que não há? Bolas.
Não há palavras que sufoquem
o sufoco em que vivo, ficha num arquivo.
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